
Presidente questiona o custo do crédito, enquanto a taxa básica de juros é definida pelo Banco Central; cenário fiscal, inflação e expectativas econômicas também pesam nas decisões monetárias.
A crítica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aos juros elevados durante o debate presidencial da TV Globo, realizado nesta sexta-feira (23), levanta uma questão importante: até que ponto o governo federal é responsável pelo patamar das taxas de juros no Brasil?
Embora o presidente da República não determine diretamente a taxa básica de juros, as decisões econômicas e fiscais de seu governo podem influenciar as condições que levam o Banco Central a manter os juros elevados ou iniciar um ciclo de redução.
A taxa Selic estava em 13,75% ao ano após decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), anunciada em 16 de setembro de 2026. Na ocasião, o Banco Central destacou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 permaneciam acima da meta e que o cenário fiscal doméstico era um dos fatores acompanhados pela autoridade monetária.
Quem decide a taxa de juros no Brasil?
A definição da Selic cabe ao Comitê de Política Monetária do Banco Central, que se reúne periodicamente para avaliar a inflação, a atividade econômica, as expectativas do mercado e os riscos internos e externos.
A Lei Complementar nº 179, de 2021, estabeleceu a autonomia do Banco Central e definiu como objetivo fundamental da instituição assegurar a estabilidade de preços.
Isso significa que Lula, mesmo ocupando a Presidência da República, não pode simplesmente ordenar ao Copom que reduza a taxa básica de juros.
Entretanto, a autonomia do Banco Central não significa que as decisões do governo sejam irrelevantes para a política monetária.
Fonte: Banco Central do Brasil — autonomia e funcionamento do Copom.
Como as decisões do governo influenciam os juros?
A taxa Selic é utilizada pelo Banco Central como instrumento de política monetária para controlar a inflação. Quando a autoridade monetária considera que existem pressões inflacionárias relevantes, pode manter os juros em patamar elevado para reduzir a demanda e favorecer a convergência dos preços à meta.
Nesse processo, a política fiscal também tem importância.
A trajetória das despesas públicas, a arrecadação, o endividamento e a credibilidade das contas governamentais podem influenciar as expectativas de inflação, os prêmios de risco e as condições de financiamento da economia.
Quando aumentam as incertezas sobre a sustentabilidade das contas públicas, o mercado pode exigir remuneração maior para financiar o governo e outros tomadores de crédito. Esse movimento pode repercutir sobre os juros cobrados em diferentes operações.
Por outro lado, a política monetária também responde a fatores que não estão sob controle exclusivo do Executivo, como choques internacionais, preços de commodities, câmbio, condições financeiras globais e alterações na oferta de produtos.
Por isso, atribuir todo o nível da Selic exclusivamente ao presidente seria uma simplificação da dinâmica econômica.
O que o Banco Central informou sobre a Selic em setembro?
No comunicado de 16 de setembro de 2026, o Copom anunciou a redução da taxa básica para 13,75% ao ano.
Apesar da redução, o Banco Central ressaltou que as expectativas de inflação continuavam acima da meta e que o cenário apresentava incertezas relevantes.
O comunicado também registrou que o Comitê acompanha os efeitos da política fiscal doméstica sobre a política monetária e os ativos financeiros.
O documento oficial permite compreender por que a discussão sobre juros não se limita à decisão isolada do presidente da República: ela envolve a interação entre inflação, expectativas, política fiscal e condições econômicas nacionais e internacionais.
Fonte: Banco Central do Brasil — comunicado da 281ª reunião do Copom, de 16 de setembro de 2026.
Lula criticou os juros em outras manifestações
A discussão sobre a Selic também apareceu em outras declarações públicas do presidente durante a campanha.
Em entrevista à TV Globo em 15 de outubro de 2026, Lula criticou o patamar dos juros e defendeu o crescimento econômico como parte da estratégia para enfrentar os problemas fiscais. Na ocasião, também demonstrou preocupação com a dívida pública e com a necessidade de preservar a população de baixa renda dos efeitos de eventuais ajustes econômicos.
Em agosto, Lula havia reconhecido a autonomia do Banco Central e defendido maior seriedade fiscal para viabilizar a redução dos juros, ao mesmo tempo que argumentou a favor de investimentos públicos em infraestrutura.
Essas manifestações mostram que o presidente atribui importância ao custo do crédito, mas também reconhece, em declarações anteriores, que a condução fiscal e a autonomia da autoridade monetária integram a discussão.
Fontes:
- G1 — entrevista de Lula à TV Globo, 15 de outubro de 2026: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/10/15/entrevista-de-lula-na-globo.ghtml
- UOL, com informações do Estadão — declarações de Lula sobre juros e política fiscal, 5 de agosto de 2026: https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2026/08/05/lula-promete-seriedade-fiscal-para-baixar-selic-mas-diz-que-teto-de-gastos-limita-investimento.htm
Afinal, Lula pode ser responsabilizado pelos juros elevados?
A resposta depende do tipo de responsabilidade que está sendo discutida.
O presidente não fixa diretamente a Selic, atribuição do Copom. Entretanto, o governo federal tem responsabilidade sobre a política fiscal, a execução do orçamento, a gestão da dívida pública e outras decisões que podem influenciar o ambiente econômico.
Isso não significa que toda decisão de manter os juros elevados seja responsabilidade exclusiva do governo federal. O Banco Central toma suas decisões com base em um conjunto de indicadores e riscos, dentro de sua autonomia legal.
Da mesma forma, criticar os juros não é, por si só, uma contradição ou uma declaração falsa. A questão relevante é verificar se o presidente apresenta uma explicação completa para o patamar da taxa e quais medidas sua administração adota para contribuir para a redução sustentável do custo do crédito.
Conclusão
A crítica de Lula aos juros elevados deve ser analisada à luz da divisão de responsabilidades na política econômica brasileira.
O Banco Central define a taxa Selic, mas as decisões fiscais do governo influenciam o ambiente no qual a política monetária é conduzida. Inflação, dívida pública, expectativas econômicas e fatores internacionais também interferem nesse processo.
Assim, a cobrança do presidente por juros menores pode ser legítima como posicionamento político e econômico, mas também é pertinente questionar quais medidas o próprio governo adota para melhorar as condições fiscais e econômicas que favorecem a redução dos juros.
O ponto central é que Lula não determina diretamente a Selic, mas a política econômica de sua administração faz parte dos fatores que o Banco Central considera ao avaliar o cenário.



