Canadá proibiu versículos bíblicos? Entenda a polêmica envolvendo a nova lei contra discurso de ódio

OTTAWA, CANADÁ – Uma onda de publicações nas redes sociais tem afirmado que o Canadá teria proibido a leitura ou a citação de versículos da Bíblia, classificando determinados textos bíblicos como “discurso de ódio”. No entanto, verificações independentes e documentos oficiais mostram que a situação é mais complexa e que a alegação de uma proibição total da Bíblia é considerada falsa por agências de checagem.

A controvérsia surgiu após o avanço do Projeto de Lei C-9, conhecido como Combatting Hate Act (Lei de Combate ao Ódio), aprovado pelo Parlamento canadense em 2026. A legislação amplia mecanismos de combate à propaganda de ódio, crimes motivados por preconceito e ataques a locais religiosos e culturais.

O que mudou?

O ponto mais debatido da nova legislação é a remoção de uma antiga proteção prevista no Código Criminal canadense que permitia a defesa baseada em opiniões religiosas expressas “de boa-fé”.

Até então, a lei previa uma exceção para pessoas que expressassem opiniões fundamentadas em textos religiosos, desde que não houvesse intenção deliberada de promover ódio. Com a aprovação do projeto, essa proteção específica foi retirada.

A mudança gerou preocupação entre líderes cristãos, juristas e organizações de defesa das liberdades civis, que temem que determinadas interpretações bíblicas sobre sexualidade, casamento e comportamento moral possam futuramente ser alvo de processos judiciais.

Governo nega proibição da Bíblia

Apesar das críticas, o governo canadense afirma que a nova lei não criminaliza a Bíblia nem torna ilegal citar versículos bíblicos.

Especialistas consultados por agências de checagem destacam que o padrão jurídico para caracterizar “promoção deliberada do ódio” continua elevado e depende de circunstâncias específicas, não da simples leitura ou compartilhamento de textos religiosos.

A plataforma de verificação de fatos Snopes, uma das mais conhecidas do mundo, classificou como falsa a alegação de que o Canadá criminalizou a leitura pública da Bíblia. Segundo a análise, o Projeto de Lei C-9 não proíbe a posse, leitura ou citação das Escrituras Sagradas.

Declarações aumentaram a polêmica

A discussão ganhou força após declarações do ministro canadense Marc Miller durante debates parlamentares. Na ocasião, ele mencionou passagens dos livros de Levítico, Deuteronômio e Romanos, argumentando que alguns trechos poderiam ser interpretados como ofensivos ou hostis contra determinados grupos.

As declarações provocaram forte reação de parlamentares conservadores e entidades religiosas, que acusaram o governo de abrir precedentes para restringir a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.

Debate continua

Enquanto defensores da lei afirmam que a medida é necessária para combater o aumento de crimes de ódio, opositores alertam para possíveis impactos sobre sermões, debates religiosos e manifestações públicas de fé.

Até o momento, não há registro de uma lei canadense que proíba a leitura da Bíblia ou que determine a retirada de versículos bíblicos da circulação. O que existe é uma intensa disputa jurídica e política sobre os limites entre liberdade religiosa e combate ao discurso de ódio.

Resumo dos fatos: